A dor não fazia barulho

A dor não fazia barulho.

Esse era o problema.

Se quebrasse alguma coisa,
alguém ouviria.

Se houvesse sangue,
alguém perguntaria.

Mas ela apenas acordava comigo.

Sentava na beirada da cama
antes mesmo que eu abrisse os olhos.

Esperava.

Eu levantava.
Tomava água.
Respondia quando falavam comigo.
Às vezes até ria.

Ninguém percebe
quando uma pessoa continua funcionando.

A depressão aprendeu isso antes de mim.

Ela não precisava destruir minha vida.

Bastava deixá-la exatamente onde estava
e retirar, lentamente,
a razão de atravessá-la.

As coisas continuavam bonitas.

Esse era outro problema.

O sol ainda entrava pela janela.
As pessoas ainda se apaixonavam.
Os carros passavam.
Alguém, em algum apartamento,
colocava uma música.

O mundo não tinha acabado.

Só tinha parado de chegar até mim.

Durante muito tempo
achei que a dor queria alguma coisa.

Uma resposta.
Um pedido de desculpas.
Uma explicação.

Depois percebi que não.

Algumas dores não querem nada.

Elas apenas encontram uma cadeira
num canto escuro da casa

e ficam.

Hoje,
quando acordo,
às vezes olho para aquela cadeira.

Ela ainda está lá.

Mas houve uma manhã
em que percebi uma coisa estranha:

já não me lembrava
de como era aquela casa
antes de sua chegada.

Nem do silêncio
que existia antes dela.

Foi então que compreendi.

A dor não estava mais
interrompendo a minha vida.

Era a vida que agora
acontecia dentro dela.

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