O vidro do meu Apple Watch estava lascado.
Não me lembrava de tê-lo quebrado.
Naquele dia, receberia um líder religioso.
O relógio continuava funcionando. Marcava as horas, registrava meus movimentos, acompanhava meu coração.
Mas havia uma rachadura.
Uma pequena imperfeição sobre uma máquina construída para medir o tempo.
A visita aconteceu.
O homem ficou furioso.
Não gostou da maneira como me comportei.
Havia algo em sua indignação que parecia maior do que aquele encontro.
Como se tivesse vindo esperando uma pessoa diferente.
Ou uma resposta que eu não sabia que deveria dar.
Depois que ele foi embora, continuei minha rotina.
Não houve trovões.
Nenhuma revelação.
Nenhum sinal de que alguma coisa extraordinária tivesse acontecido.
Na manhã seguinte, olhei para o pulso.
O vidro estava intacto.
Nenhuma rachadura.
Nenhuma marca.
Passei os dedos pela superfície.
Era o mesmo relógio.
Pelo menos, parecia ser.
Pensei no homem, na sua fúria, no vidro que estivera quebrado antes de sua chegada.
E numa pergunta que nenhuma atualização de software poderia responder:
Se o relógio já estava quebrado antes do encontro, por que só voltou ao normal depois que tudo terminou?
Talvez fosse apenas uma coincidência.
Mas, desde aquele dia, nunca mais tive tanta certeza de que os relógios servem apenas para mostrar as horas.
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