Certa vez, um sábio e um amoroso
se encontraram diante de uma pergunta:
— Qual é o contrário do amor?
O sábio sorriu.
Conhecia os homens,
suas razões, suas máscaras,
e os pequenos tribunais
que carregavam na cabeça.
— A desconfiança! — respondeu.
— O ódio ainda reconhece alguma coisa.
Mas quem desconfia
transforma até a verdade
em suspeita.
O amoroso deu uma gargalhada.
— Que resposta tão inteligente!
E tão pouco amorosa!
Para ele, o contrário do amor
era o desprezo.
Não qualquer desprezo.
Mas aquele cuidadosamente servido,
com requintes de crueldade,
um sorriso na despedida
e a delicadeza de quem fecha uma porta
sabendo que há alguém do outro lado.
O sábio achou um exagero.
O amoroso achou uma evidência.
E ambos seguiram pela vida,
convencidos de que conheciam
a pior maneira de não serem amados.
Até que um dia
os caminhos se cruzaram novamente.
O sábio havia sido desprezado.
O amoroso, colocado sob suspeita.
Que ironia!
O primeiro procurava uma explicação
para tamanha crueldade.
O segundo reunia provas
de uma inocência
que ninguém lhe havia pedido para demonstrar.
— Demorei para perceber — disse o sábio.
— Sempre achei que a desconfiança
fosse apenas uma forma de raciocinar.
— E eu — respondeu o amoroso —
pensava que o desprezo
fosse sempre uma crueldade deliberada.
Ficaram em silêncio.
Depois começaram a rir.
Não porque fosse engraçado,
mas porque haviam passado tanto tempo
tentando compreender o outro
com as próprias feridas.
O sábio queria uma razão.
O amoroso queria um gesto.
Um perguntava:
— Por que não acredita em mim?
O outro:
— Por que finge que não existo?
E nenhum dos dois
ouvia a resposta que esperava.
Foi então que surgiu
uma terceira pergunta,
muito menos filosófica
e talvez mais perigosa:
— Por que as pessoas inventam
tantas maneiras de negar o amor,
quando poderiam simplesmente dizer:
Eu odeio você!
O sábio levantou uma sobrancelha.
O amoroso quase aplaudiu.
Mas uma voz,
que ninguém soube dizer de onde vinha,
interrompeu a conversa:
— Talvez porque o ódio
seja uma declaração.
E a desconfiança,
assim como o desprezo,
permita a quem os pratica
negar até mesmo
que tenha feito alguma coisa.
Dessa vez, ninguém riu.
O sábio desconfiou da voz.
O amoroso sentiu-se desprezado.
E a voz, muito satisfeita,
desapareceu sem se explicar.
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