O Cínico Morre Debaixo da Ponte

Há dezessete anos
me disseram que eu era cínico.

Não perguntei o que significava.

Talvez isso já fosse cinismo.

Continuei vivendo.

Desconfiando das grandes palavras,
das pequenas bondades,
das verdades que chegam prontas
e das pessoas que precisam de plateia
para parecer certas.

Durante dezessete anos
carreguei uma palavra
cujo significado nunca procurei.

Até que o mundo mudou.

Agora existe um olho.

Um olho enorme,
silencioso,
aceso atrás da tela.

Ele sabe onde parei.
O que li.
O que ignorei.
O que quase amei.

E, ultimamente,
quando sou cínico,
o olho que tudo vê
faz questão de me explicar alguma coisa.

Facebook.
Instagram.
Meta.

Talvez as máquinas tenham percebido
antes de mim
o significado daquela palavra.

Cínico.

Aquele que olha para uma bela intenção
e procura o contrato escondido.

Aquele que ouve:

— É pelo seu bem.

e imediatamente pergunta:

— De quem?

Não é exatamente inteligência.

É uma espécie de defeito
que às vezes produz respostas corretas.

Trump talvez dissesse:

— Esse sujeito tem 150 de QI.

O mundo olharia para mim
e faria uma pergunta muito mais importante:

— Então por que ninguém torce por você?

Não sei.

Talvez inteligência sem torcida
seja apenas uma forma sofisticada
de solidão.

Porque o mundo não premia necessariamente
quem percebe primeiro.

Premia quem consegue fazer
milhões de pessoas
desejarem que ele esteja certo.

O cínico tem outro problema.

Quando todos gritam:

ACREDITE!

ele procura a saída de emergência.

Quando todos gritam:

ODEIE!

ele pergunta quem vendeu os ingressos.

Quando todos dizem:

ESCOLHA UM LADO!

ele olha para cima.

E percebe o olho.

Observando.

Aprendendo.

Esperando o próximo clique.

Talvez por isso
o cinismo seja tão inconveniente.

Ele não destrói apenas mentiras.

Às vezes destrói também
as ilusões necessárias para continuar vivendo.

E um homem sem ilusões
pode ser extremamente difícil de enganar.

Mas também
extremamente difícil de acompanhar.

No fim,
não importa se você estava certo.

Não importa o QI.

Não importa quantas vezes
o olho da máquina piscou para você
como se dissesse:

eu também vi.

A cidade continuará acesa.

Os servidores continuarão respirando.

As multidões continuarão escolhendo
quem amar
e quem odiar.

E existe uma coisa
que aprendi sem precisar pesquisar:

o cínico não morre necessariamente
cercado de livros,
provas
e pessoas dizendo:

você tinha razão.

Às vezes ele morre debaixo da ponte.

Sem seguidores.

Sem torcida.

Sem ninguém perguntando
quanto era seu QI.

Indigente.

Com uma única riqueza inútil:

ter desconfiado de tudo.

E talvez,
no último segundo,
olhar para o céu escuro
e desconfiar

até disso.

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