O Gato que Não Sabia Brincar

Ele aparecia depois que a noite começava.

Um gato mesclado,
de pelos confundidos com a escuridão
e olhos amarelos
que pareciam guardar alguma coisa
que eu ainda não havia descoberto.

Eu brincava.

E ele surgia.

Não vinha quando eu estava triste.
Não vinha quando o silêncio dominava a casa.
Era sempre quando alguma alegria
escapava de mim sem explicação.

Ficava parado.

Os olhos acesos.
O corpo imóvel.
Como se tivesse atravessado alguma distância
apenas para interromper aquele instante.

Eu tentava continuar brincando.

Mas havia algo em sua presença
que transformava a diversão
em uma cena que não deveria acontecer.

Ele não miava.
Não avançava.
Não precisava.

Parecia conhecer uma maneira antiga
de assombrar os vivos
sem fazer absolutamente nada.

Às vezes desaparecia
antes que eu pudesse entender
de onde tinha vindo.

Outras vezes permanecia,
observando cada movimento,
como se esperasse que eu cometesse
algum erro que só ele conhecia.

Nunca soube se queria brincar comigo
ou se estava ali para impedir
que alguma coisa brincasse.

Uma noite, resolvi não me assustar.

Continuei rindo.
Continuei brincando.
Fingi não perceber aqueles olhos amarelos
acesos no canto da escuridão.

O gato permaneceu imóvel.

E, pela primeira vez,
tive a impressão
de que não era ele
quem estava me assombrando.

Era alguma coisa atrás de mim.

E o gato,
desde o começo,
estava olhando para ela.

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