Havia uma voz
que só despertava
quando tudo silenciava.
Não vinha de longe.
Talvez morasse
atrás de algum espelho.
Certa noite,
começou a contar
as coisas que ele havia conquistado.
Eram tantas
que a madrugada terminou
antes da última.
Mas a voz não se calou.
Havia uma porta
no fim daquela casa
que nunca fora aberta.
Por ela não entravam visitas,
nem saíam lembranças.
Às vezes,
ele ouvia passos do outro lado.
E esperava.
Era estranho.
Nada parecia faltar.
As paredes guardavam histórias,
os armários, antigos tesouros.
Até o silêncio
tinha seu próprio lugar.
Mas havia algo
que não se deixava guardar.
Um dia, perguntou à voz
o que ainda lhe faltava.
Ela não respondeu.
Apenas mostrou uma janela
onde todas as casas tinham luz,
menos a sua.
E foi então que percebeu:
Havia passado a vida
procurando o que podia conquistar,
sem compreender
o que só poderia receber.
A voz silenciou.
Do outro lado da janela,
as luzes começaram a se apagar.
E ele, sem entender,
tentava descobrir
o que havia perdido.
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