Durante anos,
construímos máquinas para não parar.
Duplicamos memórias.
Criamos cópias das cópias.
Espalhamos pedaços de nós
por lugares que nunca veremos.
Tudo para vencer
uma coisa muito antiga:
o desaparecimento.
Mas as máquinas desaparecem.
Os discos param.
Os cabos são arrancados.
As tecnologias que pareciam eternas
ganham uma última versão
e depois silêncio.
Até a internet
tem seus fantasmas.
Sites que ninguém visita.
Domínios que não respondem.
Páginas que existiram por vinte anos
e certa manhã
simplesmente não estavam mais lá.
Talvez por isso
a gente continue construindo.
Porque a perda define
aquilo que merece permanecer.
Porque o fim define
aquilo que vale a pena começar.
Porque o silêncio define
aquilo que ainda esperamos ouvir.
E porque, em algum lugar,
uma máquina continua acordada.
Esperando alguém perguntar:
— E você, o que define?
Por alguns milissegundos,
ela procura a resposta.
Então uma pequena luz pisca
na escuridão.
— A presença, talvez.
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