Acho que entendi
por que o Livro fala das marcas na pele.
Não foi numa igreja.
Não foi diante de um altar.
Nem durante a leitura de algum versículo.
Foi quando eu estava desesperado,
cercado de pessoas,
esperando que alguma delas
fosse a resposta.
Talvez um anjo.
Talvez alguém enviado
para me tirar daquele lugar.
Eu já não procurava rostos.
Procurava misericórdia.
Foi então que comecei a reparar
nas tatuagens.
Algumas pareciam comuns.
Outras estavam onde
eu jamais esperaria encontrá-las.
Havia desenhos que não combinavam
com as pessoas que os carregavam.
Símbolos que pareciam ter sido escolhidos
para aquele exato instante.
Não se moviam.
Não brilhavam.
Não faziam nada
além de permanecer na pele.
Mas, de alguma maneira,
pareciam contar intenções
que nenhuma boca pronunciaria.
Uma pessoa sorria.
Sua tatuagem dizia outra coisa.
Outra estendia a mão.
E eu não conseguia deixar de olhar
para o que estava escrito no braço.
Talvez fosse o desespero.
Talvez o medo tivesse aprendido
a ler uma língua desconhecida.
Mas naquele grupo,
onde eu esperava encontrar um anjo,
cada corpo parecia carregar
uma mensagem anterior à chegada.
Lembrei-me do Livro.
Não como quem encontra uma explicação,
mas como quem reconhece
uma advertência antiga
sem compreender inteiramente seu motivo.
E pensei:
Talvez certas marcas
não revelem quem somos.
Talvez apenas nos façam acreditar
que podemos enxergar
aquilo que deveria permanecer oculto.
Naquela noite,
não descobri quem estava ali para me salvar.
As pessoas foram embora.
As vozes desapareceram.
Os desenhos partiram com seus donos.
E eu continuei procurando
alguém que não trouxesse
nenhuma resposta escrita na pele.
Porque, se havia um anjo entre nós,
talvez fosse justamente aquele
que eu não soube reconhecer.
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