O amor arregalou os olhos.
Viu a fome.
Viu o medo.
Viu o homem pequeno
diante da máquina enorme.
E gritou:
— Isso não pode continuar.
O ódio também arregalou os olhos.
Viu impostos.
Viu dívidas.
Viu fábricas fechando.
Viu números sangrando
em telas que ninguém queria olhar.
E gritou:
— Isso não pode continuar.
Os dois estavam certos.
Esse era o problema.
O amor olhava para o homem
e esquecia a máquina.
O ódio olhava para a máquina
e esquecia o homem.
Direitos humanos: dez.
Economia: zero.
Depois inverteram.
Economia: dez.
Ser humano: zero.
E continuaram discutindo
como se a realidade aceitasse
ser dividida em duas provas.
Não aceita.
Porque alguém precisa pagar a conta.
E alguém precisa sobreviver
ao modo como ela foi paga.
Talvez seja isso
que deixe nossos olhos tão esbugalhados.
Não estamos vendo pouco.
Estamos vendo demais
por apenas um lado.
O amor escolheu uma pupila.
O ódio ficou com a outra.
E o mundo,
bem no meio,
continua fora de foco.
Até que um político
tentou olhar com as duas.
Falou do homem.
Falou da máquina.
Prometeu.
Cumpriu.
Prometeu de novo.
Cumpriu de novo.
Os anos passaram.
Na história diante dela,
o país começou a mudar.
Não era necessário acreditar
em suas palavras.
Elas já tinham acontecido.
A jornalista sabia disso.
E talvez por isso
seus olhos estivessem tão esbugalhados.
Ela era a favor dele.
Era a favor do homem.
Era a favor daquela ideia quase antiga
de que governar deveria significar
melhorar a vida de alguém.
Mas olhava para ele
como se ainda esperasse alguma coisa.
Uma contradição.
Uma promessa esquecida.
Uma porta que não tivesse sido aberta.
Qualquer coisa
que colocasse novamente
cada coisa em seu lugar.
Não encontrou.
E os olhos ficaram ainda maiores.
Porque desconfiar de quem mente
é fácil.
A mentira organiza o mundo.
Coloca o mentiroso de um lado.
A verdade do outro.
Mas o que fazer
quando alguém promete
e cumpre?
Quando os anos passam
e aquilo que deveria ser apenas discurso
ganha paredes,
ruas,
salários,
comida,
números?
Ela olhou para os direitos humanos.
Depois para a economia.
Depois para o político.
Depois para o país.
E novamente para o político.
Os olhos esbugalhados.
Talvez procurando o zero.
Direitos humanos: dez.
Economia…
Ela procurou o zero.
Não estava ali.
Então procurou no homem.
Também não.
Procurou nas promessas.
Todas riscadas
como tarefas terminadas.
Foi aí que compreendeu
por que seus olhos não voltavam ao lugar.
Não era amor.
Não era ódio.
Era o desconforto de descobrir
que talvez o mundo não fosse obrigado
a escolher uma pupila.
Talvez fosse possível olhar para o homem
sem fechar os olhos para a máquina.
Talvez fosse possível cuidar da máquina
sem esquecer quem vive dentro dela.
O político foi embora.
A entrevista terminou.
As câmeras apagaram.
Mas ela permaneceu alguns segundos
olhando para a cadeira vazia.
Direitos humanos.
Economia.
Amor.
Ódio.
Duas pupilas.
Um país.
E aqueles olhos
ainda
esbugalhados.
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