Desejo define o ódio.
Amor define a desconfiança.
Mas quem define a verdade?
Talvez a mentira.
Ela aprendeu nossos nomes.
Nossos medos.
Aquilo que queremos acreditar.
E ficou muito boa nisso.
Todas as noites,
milhões de palavras atravessam a escuridão.
Algumas procuram alguém.
Outras procuram uma vítima.
Há homens escondidos atrás de nomes que não existem.
Há máquinas repetindo frases
até que pareçam verdade.
Há multidões odiando alguém
que nunca encontraram.
E há lugares ainda mais profundos.
Endereços que não aparecem nas buscas.
Portas sem placas.
Salas construídas na parte escura da rede,
onde pessoas escrevem aquilo
que em outros lugares
não poderiam dizer.
Às vezes porque é monstruoso.
Às vezes porque é proibido.
E essas duas coisas
não são sempre a mesma coisa.
Essa é a parte que assusta.
Porque a mesma sombra
que esconde quem persegue
também pode esconder
quem está sendo perseguido.
A mesma máscara
que transforma um homem em monstro
pode permitir que outro
diga a verdade e sobreviva.
Então construímos filtros.
Bloqueamos palavras.
Apagamos páginas.
Derrubamos portas.
E ainda assim
alguma coisa continua falando
do outro lado.
Talvez porque a internet tenha descoberto
muito antes de nós
que silenciar uma voz
não responde à pergunta.
Apenas apaga o som.
E no silêncio
resta o problema mais antigo de todos:
quem decide
qual voz é mentira,
qual voz é ódio,
qual voz deveria desaparecer
e qual estava apenas dizendo
algo que ninguém queria ouvir?
Desejo define o ódio.
Amor define a desconfiança.
A mentira talvez defina a verdade.
E a liberdade?
Talvez só descubramos o que ela significa
quando alguém
tenta desligá-la.
Deixe uma resposta