Por que a voz que comanda a minha vida
diz para eu fazer tudo errado?
Ela nunca grita.
Sussurra.
Vai.
Confia.
Todo mundo faz.
Depois observa de longe
enquanto eu atravesso a porta
que ela mesma abriu.
Estranho.
Quando acerto,
ela diz que foi sorte.
Quando erro,
diz que a escolha foi minha.
E assim aprendi
a estranha matemática deste mundo:
há erros que dão medalhas.
Há verdades que dão cicatrizes.
Há homens perdoados
antes mesmo de pedir perdão.
E outros condenados
antes mesmo de cometer o crime.
Talvez a voz não queira que eu seja bom.
Talvez queira apenas
que eu seja aceito.
Porque ser amado
e fazer o certo
nunca foram exatamente
a mesma coisa.
Então ela volta.
Mais baixa.
Mais próxima.
Quase dentro de mim.
— Faça.
Eu pergunto:
— É certo?
Ela responde:
— Eles vão gostar.
E finalmente entendo.
A voz que comandava a minha vida
nunca soube distinguir
amor de obediência.
Só conhecia duas recompensas:
seja amado
ou seja punido.
E talvez crescer
seja descobrir uma terceira opção:
desobedecer à voz
e suportar o silêncio.
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